Blacks Leaders
Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha: como mulheres negras estão redefinindo a liderança no Brasil
No Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, trajetórias de Kelen Lima, Nina Silva, Luana Ozemela e Wanessa Fernandes mostram que ocupar cargos estratégicos significa influenciar decisões, transformar mercados e abrir caminhos para novas gerações
Celebrado em 25 de julho, o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha é um convite para refletir sobre quem ocupa os espaços de poder e quais vozes participam das decisões que moldam empresas, políticas públicas e a economia.
Mesmo a população negra sendo a maior parte do povo brasileiro, essa não é a mesma realidade no mundo corporativo, principalmente para as mulheres negras. Elas ocupam apenas 3,4% dos cargos executivos das maiores empresas do Brasil, segundo os dados do Instituto Ethos. Além disso, somente 7,4% das empresas possuem metas específicas para ampliar a presença desse grupo em cargos estratégicos.
Os números, além de alertarem uma clara exclusão, também reforçam a importância de enaltecer e apoiar mulheres negras que hoje ocupam cargos de lideranças e fazem a diferença no mercado de trabalho.
É o caso da Wanessa Fernandes, CEO e fundadora da Africanize, Kelen Lima, Head de Novos Negócios do Grupo Podpah, Nina Silva, co-fundadora do Movimento Black Money, e Luana Ozemela, vice-presidente de Impacto e Sustentabilidade do Ifood. Três mulheres negras, de cargos e áreas diferentes, mas que possuem algo em comum. Elas transformam suas vivências em estratégias de negócios que vem inovando o mercado.
Conheça a trajetória das quatro:
Kelen Lima: uma lente cultural para o marketing

Hoje à frente da Podpah Records e da Black and Yellow, do Grupo Podpah, como Head de Novos Negócios, sua trajetória começa nas ruas, quando aprendeu com seu pai a andar por São Paulo para visitar museus e eventos culturais. Quando se formou em design, usou seu olhar cultural para construir uma marca e criar bazares, com atrações e a presença das pessoas certas. Esse background a fez ser vista pela Nike, que foi a sua grande virada de chave na sua vida.
“Eu digo que esse foi o grande divisor de águas, assim, porque eu sempre transitei muito na cidade, sempre gostei de conectar muito as pessoas e quando eu consegui esse trampo, eu falei: ‘Nossa, as pessoas são pagas por isso para fazer esse tipo de curadoria’, comentou Kelen.
Logo depois, ela foi para a Ambev, onde pode se aprofundar no mercado de marketing de influência. Juntando sua bagagem e vivência, ela esteve à frente da Budweiser e ajudou a inserir a marca dentro da cultura, com projetos com a NBA, festivais de música, principalmente de rap, criadores de conteúdo e muito mais.
Para Kelen, a cultura sempre foi mais do que inspiração, se tornou uma ferramenta estratégica para criar conexões entre marcas e pessoas. Porém, ela vê que o mercado atual deixou de ter o mesmo olhar para cultura e diversidade como via anos atrás, mas acredita que estamos em um momento de mudança.
“Eu tenho a impressão de que a gente tá chegando nesse momento em que as pessoas não estão vendo mais valor em falar sobre nada, em dizer que elas estão com times com equidade racial, em falar que elas estão contratando pessoas diversas. Eu não tenho visto um movimento interessante, como eu vi há alguns anos atrás”, contou a executiva.
“Eu acredito que toda vez que a gente tenciona algo de uma maneira muito normativa, alguma hora as pessoas voltam a ver valor na diversidade. Porque os dados de consumo estão aí: como as pessoas consomem, quem mais consome, quem são as pessoas que estão ditando as tendências que sempre nascem nas ruas antes de ir para uma vitrine. Os dados estão aí”, complementou.
Mesmo diante desse cenário, Kelen acredita que a cultura continua sendo um dos principais motores de transformação social. Para ela, equipes diversas produzem repertórios mais amplos, enxergam públicos diferentes e desenvolvem estratégias capazes de dialogar com um Brasil muito mais plural do que tradicionalmente aparece nas campanhas de marketing.
Nina Silva: liderança e poder econômico para a comunidade

Nina Silva dedicou mais de duas décadas à construção de soluções que conectam educação, tecnologia, empreendedorismo e mercado financeiro para fortalecer a economia negra. Formada na área de tecnologia, Nina Silva usou sua expertise e conhecimento do mercado financeiro para co-fundar o Movimento Black Money em 2017.
Sua visão parte de uma provocação simples, o Brasil possui uma população negra com enorme capacidade de consumo, mas ainda concentra pouca infraestrutura para transformar esse dinheiro em patrimônio, investimento e geração de riqueza.
Sua atuação na Black Money ajudou a impactar diversas pessoas negras ao longo dos anos. Ela acredita que indiretamente sejam mais de 100 mil pessoas impactadas e já ajudou a movimentar milhões de reais na economia. Seu trabalho também a fez ser considerada uma das 100 pessoas afrodescendentes com menos de 40 anos mais influentes do mundo.
Para a executiva, o desafio atual não é apenas incentivar o empreendedorismo negro, mas criar condições para que negócios liderados por pessoas negras tenham acesso a capital, inovação e escala. “O Movimento Black Money existe para ajudar a converter esse poder de compra da comunidade preta em poder econômico”, explica a fundadora.
Ao falar especificamente sobre mulheres negras, ela chama atenção para um fenômeno recorrente, muitas empreendem por necessidade, mas precisam encontrar caminhos para transformar seus negócios em instrumentos de crescimento e geração de patrimônio.
“A potência empreendedora das mulheres negras é enorme […] O desafio atualmente é a gente entender como que empreende para além da subsistência, para um lugar de oportunidade. E que isso possa gerar outras oportunidades, que essas mulheres, além de saber gerenciar escassez, possam gerenciar patrimônio, gerenciar investimento e trabalhar crescimento e inovação, dentro dos seus negócios”, explicou Nina.
Luana Ozemela: impacto social precisa fazer parte da estratégia

Economista e vice-presidente de Impacto e Sustentabilidade do Ifood, Luana Ozemela construiu uma carreira internacional dedicada a entender como desenvolvimento econômico, inovação e redução das desigualdades podem caminhar juntos.
Seu lado mais social surgiu em casa, ela cresceu com pais engajados na luta por igualdade racial e muito cedo começou a questionar a desigualdade e a falta de oportunidade para pessoas mais pobres.
“Isso despertou em mim uma curiosidade enorme sobre economia, sobre por que alguns países prosperam e outros não, por que algumas pessoas conseguem romper ciclos de pobreza enquanto tantas outras seguem presas a eles. Foi isso que me levou a estudar Economia, buscar bolsas de estudo, aprender inglês muito cedo e construir uma formação internacional”
Sua ambição e vontade de contrariar as estatísticas a levou para voos cada vez mais altos. Fez mestrado, doutorado, trabalhou no Banco Interamericano de Desenvolvimento, até chegar no Ifood em 2022. Em 2024, foi considerada uma das 500 pessoas mais influentes da América Latina pela Bloomberg Línea.
Para ela, a sustentabilidade vai além de relatórios, está mais atrelado a como a empresa pode gerar um impacto real para clientes, colaboradores, fornecedores e sociedade.
“Empresas que levam diversidade e inclusão produtiva a sério não fazem isso como filantropia corporativa. Fazem porque o dado mostra o retorno: acesso a mercados consumidores que antes eram ignorados, redução de rotatividade, capital reputacional que se converte em vantagem competitiva real. Essa é a diferença entre uma empresa que faz relatório de impacto uma vez por ano e uma empresa que constrói impacto como arquitetura permanente do seu crescimento.”
Ao refletir sobre a presença de mulheres negras em posições estratégicas, Luana reconhece que houve avanços importantes na última década, mas faz um alerta: representatividade só se consolida quando vem acompanhada de poder real de decisão.
“O teste real acontece no próximo ciclo de corte de custos, porque programas de diversidade costumam estar entre os primeiros itens cortados quando a empresa aperta o cinto. A pergunta que importa não é quantas mulheres negras estão em cargos de liderança hoje. É quantas delas têm poder de decisão sobre capital, sobre orçamento, sobre estratégia. Se estão ali para decidir, o movimento se sustenta mesmo em crise. Se estão ali para compor a foto do relatório de diversidade, voltamos à estaca zero na primeira turbulência. Meu trabalho, e o da minha geração, é garantir que seja a primeira alternativa que se concretize, e não a segunda.”
Essa mesma visão a motivou criar a BlackWin, comunidade criada para conectar mulheres negras investidoras, executivas e conselheiras. A iniciativa surgiu literalmente de um sonho, onde Luana se viu discutindo investimentos e ativos com diversas mulheres negras, mas quando acordou percebeu que não conhecia nenhuma em seu ciclo.
O nome “Black Winners” também carrega um significado, ele foi inspirado nas ganhadeiras do Recôncavo Baiano, um grupo de mulheres negras (escravas, libertas e descendentes) que conseguiram atuar no comércio informal, conquistando autonomia econômica e a oportunidade de comprar suas alforrias e de familiares.
Wanessa: a comunidade negra precisa contar suas próprias narrativas

Em 2014, a empresária Wanessa Fernandes decidiu criar a Africanize. O que começou como um grupo de Facebook, hoje se tornou um dos maiores ecossistemas de mídia e cultura negra da América Latina
Além da plataforma de notícias e entretenimento, lidera projetos como Black Leaders, Africanize Sessions e Africanize Party, conectando comunicação, música, experiências e negócios para ampliar o protagonismo negro dentro e fora da internet.
Para ela, a cultura negra era vista anos atrás apenas como uma tendência, mas hoje com as narrativas sendo contada pela sua própria comunidade os valores podem ser respeitados e abrir caminhos para novos projetos e lideranças pretas.
“Durante muito tempo, pessoas negras foram vistas como tendência, público ou audiência, mas não como donas das próprias narrativas. Quando a gente cria plataformas, eventos e projetos liderados por pessoas negras, não está falando apenas de representatividade: está falando de poder, de pertencimento e de oportunidade. É sobre transformar visibilidade em estrutura, abrir caminhos para novas lideranças e garantir que a nossa cultura também gere valor para quem sempre esteve na origem dela”, comentou Wanessa.
Liderança que transforma o presente e inspira o futuro
As trajetórias de Kelen Lima, Nina Silva e Luana Ozemela mostram que a presença de mulheres negras em cargos estratégicos vai muito além da representatividade. Ao liderarem áreas fundamentais como cultura, tecnologia, inovação e sustentabilidade, elas ampliam perspectivas, influenciam decisões e ajudam a construir ambientes mais diversos e competitivos.
Em um país onde mulheres negras ainda ocupam uma parcela reduzida dos espaços de poder, suas histórias evidenciam que liderança também é um instrumento de transformação social. No Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, elas reforçam que ampliar o acesso a esses cargos não é apenas uma questão de justiça, mas de desenvolvimento econômico, inovação e construção de um futuro mais plural para o Brasil.




