10 de abril de 2026

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Inaiara Florêncio analisa a desconexão entre marcas e público e aponta: “São muitos Brasis, mas ainda se comunica como se fosse um só”

Sócia e CO-CEO Gana apresenta uma nova lógica de comunicação que une diversidade, inovação e estratégia

Barbara Braga | 10/04/2026
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- Crédito: @inaiaraflorencio

Antes de ocupar espaços de liderança e se tornar uma das vozes mais provocativas da comunicação no Brasil, Inaiara Florêncio já entendia que educação era mais do que um caminho, era transformação. A executiva, que atualmente atua como Sócia e CO-CEO da Gana, compartilhou reflexões sobre liderança, inovação e o papel da cultura na construção de estratégias mais genuínas.

Filha de professora da rede pública, foi nesse ambiente que construiu o olhar que hoje atravessa sua trajetória: inquieto, crítico e atento às ausências. “Não tem como falar do lugar que eu estou hoje sem passar pela educação”, afirma.

A influência vem de casa. A mãe, educadora, já aplicava metodologias práticas e inovadoras em sala de aula, muito antes de isso se tornar tendência. Foi ali que Inaiara desenvolveu não só o interesse pelo aprendizado, mas também pela comunicação. Ainda criança, escrevia jornais para a escola e para o condomínio, dando os primeiros passos em uma trajetória que começaria oficialmente no jornalismo.

Mas a inquietude sempre esteve presente.

“Eu sabia que era sobre comunicação, mas não daquele jeito. Aquilo me parecia arcaico”, relembra.

Foi essa insatisfação que a levou a expandir sua atuação, conectando o jornalismo ao comportamento das pessoas na internet, antes mesmo de o mercado entender o valor dessa escuta. A virada aconteceu quando percebeu que comunicação não era apenas sobre informar, mas sobre criar pontes entre marcas e cultura.

Repertório, vivência e as narrativas que ficam de fora

Ao longo da carreira, Inaiara passou a identificar um padrão: a ausência de diversidade nas ideias.

“Muitas narrativas ficavam de fora, em praticamente todas as histórias e categorias.”

O que inicialmente parecia destaque individual, na verdade era reflexo de algo estrutural. “Eu demorei pra entender que o que eu tenho de mais valioso é o meu repertório e a forma como eu enxergo o mundo.”

Como mulher negra, sua vivência trouxe um olhar diferente, e necessário, para dentro de um mercado que, historicamente, operou com visões limitadas.

Inaiara integra o Women to Watch Brasil, iniciativa que mapeia mulheres de referência no mercado de comunicação e negócios

Propósito não se sustenta sem diversidade

Hoje, mesmo com o discurso de propósito cada vez mais presente nas marcas, Inaiara aponta uma contradição importante: a falta de mudança real nas estruturas de decisão.

“Se quem está na cadeira de decisão não tem consciência, não existe comunicação genuína.”

Para ela, o problema começa antes da campanha. “A comunicação começa no indivíduo, no repertório, no ponto de vista, na consciência.”

E o cenário, segundo ela, ainda preocupa: “A gente teve um boom de contratações de pessoas pretas, mas hoje as principais contratações voltaram a ser de homens brancos.”

O impacto disso é direto na criatividade: “Times com menos representatividade têm as mesmas ideias.”

Oju: cultura como infraestrutura, não tendência

É a partir dessa inquietude que nasce a Oju, agência liderada por Inaiara. O nome, que significa “olhar profundo” em iorubá, traduz o que se propõe a fazer no mercado.

“Cultura não é só repertório criativo. É infraestrutura de negócio.”

A agência surge como resposta a uma necessidade: ampliar narrativas, tensionar padrões e construir estratégias a partir de múltiplos olhares.

“É a partir dessa inquietude acumulada ao longo de anos observando o mercado de dentro que nasce a Oju.”

Mais do que diversidade simbólica, o diferencial está na vivência aplicada à estratégia. “Quando a gente fala de cabelo, é o nosso cabelo. Quando fala de tom de pele, é a nossa vivência.”

Se antes o posicionamento de uma agência 100% preta era uma provocação necessária, hoje Inaiara amplia o debate. “O mercado precisava entender que estava perdendo um repertório imenso. Agora, a discussão é ainda maior.”

Para ela, diversidade não é um recorte isolado, mas uma construção contínua e estratégica. “Diversidade é ampliar visão, não limitar ela.

Tecnologia, inovação e o risco de repetir desigualdades

No campo da tecnologia, Inaiara é direta: inovação sem diversidade pode aprofundar desigualdades.

“A minha maior preocupação é quem está construindo a tecnologia, e para quem.”

Ela alerta para vieses já existentes: “O algoritmo não é neutro. Ele reflete quem está por trás construindo.”

Ao mesmo tempo, reconhece o potencial da tecnologia como ferramenta, desde que usada com consciência. “A tecnologia é meio. O que importa é como a gente constrói a narrativa.”

Em um cenário de excesso de informação, o desafio deixou de ser apenas aparecer, e passou a ser conectar.

“Está todo mundo cansado. Ninguém aguenta mais só consumir.”

Para ela, isso exige uma nova sensibilidade das marcas: “É preciso olhar para o comportamento real das pessoas e não encaixá-las em caixinhas.”

Provocar é construir futuro

Se existe uma linha que conecta toda a trajetória de Inaiara Florêncio, é a provocação.

“Eu sempre fui a pessoa que entra e pergunta: ‘Por que vocês estão fazendo isso? Pra quem? Baseado em quê?’”

Mais do que questionar, sua atuação aponta caminhos. Em um mercado que ainda busca evoluir, sua presença representa não apenas mudança, mas também direção.

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Barbara Braga