30 de abril de 2026

Blacks Leaders

Recontar a África a partir de dentro: a missão de Maurício Camillo na primeira fábula africana da TV brasileira

Consultor detalha como A Nobreza do Amor constrói uma nova narrativa sobre a África, valorizando ancestralidade e protagonismo negro

Barbara Braga | 29/04/2026
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Durante décadas, a televisão brasileira ajudou a consolidar uma imagem limitada da África, quase sempre associada à pobreza, ao atraso ou à ausência de protagonismo. Uma narrativa repetida ao longo do tempo e absorvida como verdade por diferentes gerações.

Mas essa história começa a ser reescrita.

Por trás de uma nova produção que conecta África e Brasil, está o trabalho do pesquisador e consultor Maurício (NAE/UFRJ), que assumiu uma tarefa tão simbólica quanto complexa: reposicionar o olhar sobre o continente africano dentro da teledramaturgia brasileira.

“Existe um senso comum muito forte que reduz a África à pobreza. E isso atravessa toda a sociedade brasileira.”

Antes de aceitar o projeto, Maurício não tomou a decisão sozinho. Recorreu aos mais velhos, às lideranças da diáspora e a pessoas que há décadas constroem a luta por uma narrativa negra mais justa.

“Eu vou falar por pessoas que vieram antes de mim. Então precisava ouvir quem construiu esse caminho.”

A decisão carrega um peso: não se trata apenas de consultoria, mas de responsabilidade histórica.

África não é estética, é linguagem, é sistema, é vida

Dentro da produção, o trabalho de Maurício foi garantir que a cultura africana não fosse reduzida a elementos visuais vazios.

Cada detalhe, do figurino à direção de arte, foi pensado como parte de uma narrativa maior.

“Na África, ninguém veste só por si. Você veste a coletividade. Cada cor, cada estampa, cada cabelo tem significado.”

Mais do que estética, o corpo se torna território de ancestralidade.

E, ao mesmo tempo, houve limites claros: “Nem tudo precisa ser mostrado. Preservar também é respeitar.”

Ao atravessar o Atlântico e chegar ao Brasil, a novela encontra em Barro Preto, cidade fictícia nordestina, um território já profundamente marcado pela presença africana.

Para Maurício, essa escolha revela uma verdade histórica: “O Brasil é uma África fora do continente.”

A narrativa mostra que a cultura africana não desapareceu, ela se transformou, se adaptou e continua viva em práticas, saberes e modos de existência.

Da tela para as passarelas: a potência simbólica na Rio Fashion Week

A força estética e simbólica da novela ultrapassa a televisão e chega também ao universo da moda. Em uma ação inédita na Rio Fashion Week, a produção de A Nobreza do Amor ganha destaque ao levar para as passarelas elementos visuais inspirados na narrativa africana construída na trama.

A iniciativa reforça como a estética apresentada na novela não é apenas figurino, mas expressão de identidade, ancestralidade e política. Ao ocupar um dos principais espaços da moda nacional, a obra amplia seu impacto e reafirma a presença africana como referência contemporânea de estilo, conceito e linguagem.

Lilo oliveira | Larissa Lopes | Globo

Nobreza não é riqueza: uma ruptura de paradigma

Um dos pontos mais potentes da construção narrativa está na forma como a novela redefine conceitos como poder e nobreza.

“Na África, ninguém é dono do poder. Quem governa está apenas fazendo a gestão de algo que pertence aos ancestrais.”

Até mesmo o ouro, frequentemente associado à riqueza, ganha outro significado: “Não é acúmulo material. É conexão com a terra, tecnologia e ancestralidade.”

A novela propõe mais do que entretenimento: ela educa. Os personagens são construídos para romper com visões simplistas, inclusive quando ocupam lugares de conflito.

A narrativa desloca o olhar do público, mostrando que a África é plural, dinâmica e atravessada por tensões, como qualquer sociedade.

Impacto no imaginário: quem pode ser rei ou rainha?

Para Maurício, uma das transformações mais profundas está no campo simbólico.

“Muitas crianças negras nunca tiveram a oportunidade de brincar de rei ou de rainha.”

Ao apresentar personagens negros em posições de poder, inteligência e protagonismo, a novela amplia horizontes e reconfigura possibilidades.

Uma trajetória que atravessa a universidade e as comunidades

A presença de Maurício no projeto não é casual, é fruto de uma trajetória construída ao longo de anos. Sociólogo, arquiteto e urbanista, ele chegou ao Brasil em 2006, em um momento em que a implementação do ensino de história da África ainda dava seus primeiros passos.

Desde então, construiu um caminho entre universidade e território. “O conhecimento não pode se reduzir ao livro. Eu precisava vivenciar a diáspora.”

Durante mais de uma década, ministrou cursos sobre história e cultura africana em espaços como a UFRJ, mas também levou esse conhecimento para fora da academia, alcançando comunidades negras, periferias e favelas.

Ao olhar para sua participação na novela, Maurício reconhece o peso simbólico desse momento.

“Por muito tempo, esse trabalho foi feito em lugares sem visibilidade. Agora, ele chega a um outro espaço.”

Mais do que conquista individual, ele vê como um movimento coletivo, resultado de uma rede construída com intelectuais, mestres e lideranças negras ao longo do tempo.

Para ele, a novela não encerra nada. Pelo contrário.“Esse é um começo de vários começos.”

A expectativa é que o público brasileiro passe a enxergar a África a partir de uma nova perspectiva: “Uma África com organização, com conhecimento, com tecnologia, com contradições, e com futuro.”

Entre bastidores e protagonismo: quem sustenta a narrativa

Ao final da entrevista, Maurício faz questão de reconhecer quem constrói essas transformações, muitas vezes longe dos holofotes. Em especial, ele destaca o papel das mulheres negras.

“São mulheres negras que estão por trás desse grande reino, sustentando o saber e a ancestralidade.”

E deixa um reconhecimento direto ao trabalho da própria Africanize: “Vocês estão fortalecendo o nosso povo. É um trabalho que não aparece o tempo todo, mas sustenta muita coisa.”

No fim, a novela aponta para algo maior do que a ficção: um reencontro entre África e sua diáspora.

“A África precisa encontrar a diáspora, e a diáspora precisa encontrar a África.”

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Barbara Braga