Representatividade
O que é o Código de Defesa e Inclusão do Consumidor Negro, projeto brasileiro premiado em Cannes?
Documento reúne dez diretrizes para combater práticas discriminatórias e já é adotado por empresas do varejo brasileiro
Entrar em uma loja e ser seguido por seguranças. Ter o atendimento ignorado. Ser tratado com desconfiança ao experimentar um produto ou realizar uma compra. Para milhões de consumidores negros no Brasil, situações como essas não são exceções. São experiências recorrentes que fazem parte da jornada de consumo.
Foi a partir dessa realidade que nasceu o Código de Defesa e Inclusão do Consumidor Negro, iniciativa criada pela L’Oréal Luxo, em parceria com a Beta Collective, o MOVER (Movimento pela Equidade Racial) e a organização Black Sisters in Law. Em 2026, o projeto ganhou reconhecimento internacional ao ser premiado no Cannes Lions, o principal festival de criatividade e comunicação do mundo.
Prêmios no Cannes Lions 2026: reconhecimento global contra o racismo
O impacto da iniciativa ultrapassou as fronteiras do Brasil. No Cannes Lions 2026, principal festival de criatividade e comunicação do mundo, o Código conquistou dois Leões de Prata, nas categorias Creative Business Transformation e Luxury. O reconhecimento internacional destacou a capacidade do projeto de transformar uma discussão histórica sobre racismo nas relações de consumo em uma ferramenta prática de mudança para empresas e consumidores.
Além das premiações, o projeto também figurou entre os finalistas da categoria Glass: The Lion for Change, dedicada a iniciativas que enfrentam desigualdades e promovem impacto social por meio da criatividade.
Quais são as diretrizes do Código de Defesa do Consumidor Negro?
Inspirado no Código de Defesa do Consumidor tradicional, o documento reúne dez diretrizes voltadas à promoção da equidade racial no varejo.
Embora não possua força de lei, o material funciona como um rigoroso instrumento de autorregulação. O objetivo é incentivar as empresas a adotarem práticas que tornem a experiência de compra segura, respeitosa e inclusiva.
Entre as principais medidas exigidas pelo documento estão:
- Incentivo à contratação e ascensão de profissionais diversos no mercado de trabalho.
- Implementação de treinamentos antirracistas contínuos para as equipes de vendas e segurança;
- Garantia de atendimento digno, livre de qualquer viés de discriminação;
- Livre circulação de consumidores negros dentro dos estabelecimentos, proibindo a perseguição ostensiva ou velada;
- Criação de protocolos rígidos e humanizados para abordagens e revistas;
No setor da beleza, as recomendações também incluem a ampliação da oferta de produtos que atendam diferentes tonalidades de pele e tipos de cabelo, reconhecendo a diversidade da população brasileira e combatendo uma exclusão histórica do mercado.
Impacto estrutural: do racismo em lojas de luxo à autorregulação
A criação do código foi motivada por uma pesquisa que identificou 21 práticas racistas recorrentes na experiência de compra de consumidores negros em lojas de luxo. Os resultados evidenciaram que o problema não estava restrito a casos isolados, mas fazia parte de uma estrutura que impacta diariamente o acesso, o atendimento e a permanência de pessoas negras em determinados espaços de consumo.

Diante desse cenário, a iniciativa propôs uma mudança de perspectiva. Em vez de tratar episódios de discriminação apenas como ocorrências individuais, o Código busca estabelecer parâmetros que ajudem empresas a identificar, prevenir e enfrentar práticas racistas dentro de suas operações.
Desde seu lançamento, o documento passou a ser adotado por uma coalizão de empresas do varejo brasileiro, ampliando seu alcance para milhares de lojas em diferentes regiões do país. O movimento demonstra que a discussão sobre diversidade já não se limita à comunicação institucional ou às campanhas publicitárias, alcançando também a experiência concreta dos consumidores.




