11 de fevereiro de 2026

África

Nigéria recupera artefatos africanos saqueados pelo Império Britânico

Serão devolvidas oficialmente 116 peças retiradas durante expedição britânica de 1897, ligadas aos Bronzes de Benin

Barbara Braga | 11/02/2026
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- Crédito: Universidade de Cambridge

Mais de um século depois de um dos saques coloniais mais emblemáticos da história moderna, um conjunto de artefatos africanos retirados da Nigéria por tropas britânicas começa a retornar oficialmente ao seu lugar de origem. A Universidade de Cambridge, no Reino Unido, anunciou que vai devolver 116 peças ligadas ao antigo Reino de Benin, território localizado no sul da Nigéria, em um movimento que reacende o debate global sobre restituição, memória e reparação histórica.

Os objetos fazem parte do grupo conhecido mundialmente como Benin Bronzes (Bronzes de Benin), um conjunto de esculturas, placas e ornamentos produzidos ao longo de séculos pelo povo Edo. Para além do valor artístico, as peças carregam importância histórica, espiritual e cultural, sendo parte de uma herança que foi violentamente interrompida pela colonização.

O que aconteceu em 1897

O episódio que marca essa história é a expedição britânica de 1897, quando tropas do Império invadiram Benin City e saquearam o palácio real. Milhares de artefatos foram retirados do território nigeriano e, posteriormente, vendidos ou distribuídos entre museus e coleções privadas na Europa e em outros países.

Durante décadas, o que foi chamado de “coleção” por instituições europeias foi denunciado por pesquisadores, líderes tradicionais e autoridades nigerianas como aquilo que de fato foi: pilhagem colonial.

A devolução anunciada por Cambridge

Segundo a BBC, as 116 peças que estavam sob a guarda do Museum of Archaeology and Anthropology (MAA), ligado à Universidade de Cambridge, tiveram sua propriedade transferida oficialmente para o órgão nigeriano responsável por museus e patrimônio, o National Commission for Museums and Monuments (NCMM).

A expectativa é que parte desses artefatos também seja devolvida fisicamente ao longo de 2026, para ser exposta em instituições nigerianas, especialmente em Lagos e em Benin City.

O retorno dos Bronzes de Benin não é apenas uma movimentação cultural: é um gesto político. Ele representa a disputa sobre quem tem o direito de contar a história africana, de guardar sua memória e de lucrar com ela.

A devolução também fortalece uma agenda internacional cada vez mais pressionada por movimentos de reparação e por cobranças sobre a origem de acervos que, durante muito tempo, foram tratados como “universais”, ainda que tenham sido construídos a partir de violência, saque e dominação.

Nos últimos anos, países como a Holanda também avançaram com devoluções de bronzes e outros artefatos para a Nigéria, reforçando que esse não é um caso isolado, mas parte de um processo maior.

Restituição não é “favor”: é justiça histórica

A discussão sobre repatriação costuma ser tratada, em alguns setores europeus, como um gesto de “boa vontade”. Mas, para as comunidades africanas, o retorno é entendido como o mínimo: um passo necessário para reequilibrar uma história marcada por roubo de patrimônio, apagamento cultural e exploração econômica.

Quando um artefato africano volta para casa, não é apenas um objeto que retorna. Volta uma parte da memória de um povo, a possibilidade de reconstruir narrativas e o direito de existir no mundo sem ter sua cultura permanentemente aprisionada em vitrines estrangeiras.

A devolução anunciada por Cambridge pressiona outras instituições britânicas e europeias a revisarem seus próprios acervos. O Reino Unido ainda abriga algumas das coleções mais extensas de peças saqueadas do continente africano, e a discussão sobre restituição continua atravessada por resistência política, disputas jurídicas e interesses financeiros.

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Barbara Braga