7 de maio de 2026

Música

L7NNON e Papatinho levam o rap para dentro do Theatro Municipal do Rio de Janeiro com a Orquestra Novo Traço

Projeto rompe barreiras entre o clássico e o urbano e propõe novos caminhos para a música brasileira contemporânea

Barbara Braga | 07/05/2026
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- Crédito: @novo.traco | @victormoura.studio

O que acontece quando o peso simbólico de uma orquestra encontra a linguagem do hip hop contemporâneo?

A resposta apareceu no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, no último dia 25 de abril, quando a Orquestra Novo Traço reuniu L7NNON e Papatinho em uma apresentação que rompeu fronteiras entre o clássico e o urbano.

O projeto NT Sessions, idealizado pela produtora Novo Traço, nasceu justamente dessa proposta:
tirar a música clássica do lugar elitizado onde ela historicamente foi colocada e aproximá-la das narrativas que hoje movimentam a cultura brasileira.

O interesse imediato do público mostrou a dimensão desse encontro. Os 1.400 ingressos disponibilizados para a apresentação esgotaram em apenas 12 minutos.

Quando o Theatro Municipal encontra Realengo

Existe uma simbologia inevitável em ver um artista como L7NNON ocupando o palco do Theatro Municipal.

Cria de Realengo, na Zona Oeste do Rio, o rapper construiu sua trajetória transformando vivência periférica em linguagem musical. E talvez seja justamente isso que torne o encontro tão potente:
o rap entrando em espaços que durante décadas foram tratados como inacessíveis para determinados corpos, territórios e sonoridades.

Mas o projeto não funciona como simples tentativa de “aproximar universos”.

Ele parte do entendimento de que essas fronteiras talvez nunca tenham existido de verdade.

“A Orquestra Novo Traço não tem sede fixa ou repertório pré-determinado porque as fronteiras entre o clássico e o popular nunca existiram de verdade para nós”, afirma Rafaello Ramundo, criador da orquestra e diretor artístico do projeto.

Rap, orquestra e patrimônio cultural

Com regência do maestro Carlos Prazeres, o projeto mergulhou em um processo criativo que começou longe dos holofotes.

A gravação aconteceu no Sonastério, estúdio localizado em Minas Gerais conhecido pelo ambiente de imersão artística. Foi ali que nasceram as releituras orquestrais e o single “Celebrando a Vida”, lançado em 24 de abril.

Segundo L7NNON, o encontro mudou completamente a percepção sobre as próprias músicas.

“Quando a orquestra entrou, cada faixa ganhou uma dimensão que a gente não esperava. Foi tipo ouvir as músicas pela primeira vez de novo.”

Já Papatinho destacou a construção coletiva do projeto e o peso simbólico de levar esse trabalho para o palco do Municipal.

@novo.traco | @victormoura.studio

Nos últimos anos, encontros entre música clássica e gêneros populares se tornaram mais frequentes. Mas o NT Sessions parece operar em outra direção.

Não se trata apenas de estética. Existe uma disputa simbólica importante acontecendo ali: quem pode ocupar determinados espaços culturais, quais sonoridades são consideradas “sofisticadas” e quais narrativas passam a ser legitimadas dentro desses ambientes.

Quando o rap sobe ao palco de uma das instituições culturais mais tradicionais do país, não é apenas um show. É também uma reorganização de imaginário.

A música brasileira já mudou os espaços agora começam a acompanhar

A escolha de L7NNON e Papatinho para inaugurar o projeto também ajuda a entender o momento da música brasileira. Os dois artistas ajudaram a construir parte importante da sonoridade urbana da última década, conectando: rap, trap, funk, música pop e produção periférica contemporânea.

Enquanto isso, a Orquestra Novo Traço surge justamente propondo uma nova lógica: uma orquestra sem fronteiras rígidas, sem repertório engessado e sem medo de atravessar territórios culturais. Talvez por isso o encontro tenha provocado tanto interesse.

Porque, no fundo, o público não estava apenas assistindo a uma fusão musical. Estava assistindo a um novo desenho possível para a cultura brasileira.

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Barbara Braga