16 de maio de 2026

Cultura

Viola Davis e editora Todavia criam coleção voltada a autores negros brasileiros

Parceria inédita começa com o novo romance de Lilia Guerra, "Velha Guarda", previsto para chegar ao mercado em julho

Barbara Braga | 15/05/2026
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@violadavis

Durante muito tempo, a literatura negra brasileira foi tratada como nicho dentro do próprio país.

Mesmo produzindo algumas das narrativas mais potentes da literatura contemporânea, autores negros historicamente precisaram disputar espaço em um mercado editorial que raramente enxergava suas histórias como universais, comerciais ou dignas de circulação global.

Agora, esse cenário ganha um movimento simbólico e inesperado. A atriz Viola Davis anunciou uma parceria inédita com a Editora Todavia para impulsionar uma coleção dedicada à literatura afro-brasileira.

O projeto será realizado através da Ashé Ventures, produtora fundada por Viola Davis e Julius Tennon, e pretende ampliar a presença internacional de escritores negros brasileiros através de publicações, traduções, ações de lançamento e possíveis adaptações audiovisuais.

O primeiro livro da parceria será o novo romance “Velha Guarda” de Lilia Guerra,  previsto para chegar ao mercado em julho. A autora da Zona Leste de São Paulo vem se consolidando como uma das vozes mais importantes da literatura negra contemporânea no Brasil.

Quando Hollywood olha para a literatura negra brasileira

O movimento chama atenção justamente porque foge do caminho mais comum da indústria cultural internacional. Em vez de investir apenas em cinema, streaming ou música, Viola Davis escolhe apostar diretamente na circulação de narrativas afro-brasileiras escritas por autores negros.

E isso carrega um peso importante. Historicamente, a literatura brasileira que chega ao exterior quase sempre passa por filtros ligados à branquitude, ao exotismo ou a uma ideia limitada de Brasil.

Ao colocar autores negros no centro dessa estratégia, o projeto ajuda a ampliar quais histórias brasileiras podem ser traduzidas, exportadas e reconhecidas internacionalmente.

Lilia Guerra abre caminho para a coleção

A escolha de Lilia Guerra como primeiro nome da coleção também parece significativa.

Moradora da Cidade Tiradentes, extremo leste de São Paulo, a autora construiu sua trajetória escrevendo sobre periferia, mulheres negras, sobrevivência urbana, afetos, memória e desigualdade social. Mas sem reduzir personagens negros apenas à dor.

Sua literatura trabalha humanidade, complexidade e cotidiano de forma direta, sensível e política ao mesmo tempo. Antes do reconhecimento literário, Lilia trabalhou como empregada doméstica e hoje atua como auxiliar de enfermagem no SUS, experiências que atravessam parte de sua escrita.

Agora, sua obra passa a ocupar também um circuito internacional de atenção.

Narrativas negras brasileiras começam a atravessar fronteiras

Nos últimos anos, a literatura negra brasileira ganhou novo fôlego com autores como: Conceição Evaristo, Cidinha da Silva, Jeferson Tenório e Lilia Guerra. Ainda assim, a circulação internacional dessas obras continua limitada quando comparada ao tamanho e à potência dessas produções.

Por isso, a parceria com Viola Davis representa mais do que uma colaboração editorial. Ela sinaliza um reconhecimento internacional de que histórias negras brasileiras não pertencem apenas ao campo da resistência cultural.

Elas também pertencem ao centro do mercado, da arte e da produção global contemporânea.

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Barbara Braga