5 de maio de 2026

Cultura

Ogoh-Ogoh: o ritual que transforma confronto em renascimento

Em Bali, tradição ancestral mostra que encarar o negativo é parte essencial do equilíbrio

Barbara Braga | 04/05/2026
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- Crédito: @JoyHardSpoken

Em Bali, o mal não é ignorado, ele é exposto em praça pública. O festival do Ogoh-Ogoh parte de uma lógica simples e radical: aquilo que desestabiliza precisa ser nomeado, materializado e enfrentado. E é exatamente isso que acontece quando esculturas gigantes tomam as ruas representando forças que muitos preferem não encarar.

Mas o ponto central não está na aparência dessas figuras. Está na decisão de não esconder o que é incômodo.

Ao invés de negar o mal ou afastá-lo simbolicamente, o ritual propõe algo mais direto: reconhecer, externalizar e confrontar essas forças. É um movimento coletivo de trazer para fora aquilo que normalmente permanece invisível, medos, tensões, conflitos.

E essa exposição não acontece em silêncio. Para atrair e concentrar essas energias, os moradores tomam as ruas em desfiles intensos, barulhentos e carregados de movimento. Os Ogoh-Ogoh são erguidos, carregados por grupos, atravessando a cidade em meio a música, gritos e vibração. É um momento de ruptura com a ordem cotidiana, um espaço onde o caos é permitido, amplificado e reconhecido.

Ao final do ritual, muitos desses gigantes são queimados em um gesto simbólico de purificação e liberação. O que antes era forma e presença se dissolve, marcando o encerramento de um ciclo de confronto com o negativo.

Tudo isso acontece estrategicamente na véspera do Nyepi, uma das datas mais importantes da cultura local. Diferente de outras celebrações de Ano Novo, o Nyepi é marcado por um silêncio absoluto.

Durante esse dia:

  • não há circulação nas ruas
  • não há luzes ou atividades
  • não há ruído

É um convite coletivo à introspecção, ao recolhimento e à reorganização interna.

E talvez seja exatamente essa sequência que carrega a força do ritual:
primeiro, expurgar;
depois, silenciar;
então, recomeçar.

Em um mundo que frequentemente tenta sustentar a ideia de equilíbrio constante, o Ogoh-Ogoh propõe outra lógica. Ele reconhece que o desequilíbrio existe, e que ignorá-lo não o faz desaparecer.

Pelo contrário. Só é possível construir paz quando se tem coragem de olhar para aquilo que desorganiza. No fim, o ritual não fala sobre monstros. Fala sobre consciência coletiva.

Sobre entender que o caos também faz parte, e que transformar começa, inevitavelmente, por reconhecer.

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Barbara Braga