Música
Morre Ebo Taylor, lenda do highlife e um dos arquitetos da música popular africana
Aos 90 anos, o músico deixa um legado profundo de criatividade, influência e ressignificação da música africana no cenário global
O músico ganense Ebo Taylor, um dos principais arquitetos do highlife, gênero que se tornou um símbolo da música popular africana e inaugurou diálogos sonoros com jazz, funk, afrobeat e ritmos contemporâneos, faleceu no dia 7 de fevereiro de 2026, aos 90 anos. A notícia foi confirmada pela Musicians Union of Ghana (MUSIGA) e rapidamente repercutiu entre artistas, pesquisadores e público ao redor do mundo como a perda de um dos maiores criadores musicais do continente.
Nascido Deroy “Ebo” Taylor em 6 de janeiro de 1936, em Cape Coast (Gana), Taylor não foi apenas um guitarrista virtuoso: ele foi um visionário cultural, responsável por ampliar as fronteiras do highlife e conectar a música africana às linguagens sonoras globais sem abandonar suas raízes. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, sua obra se tornou um marco de referência para gerações de músicos africanos e da diáspora.
Da cena ganense para o mundo e de volta à cena local
Ebo Taylor começou sua trajetória no final dos anos 1950, em um período em que o highlife florescia como gênero urbano em Gana. Integrando bandas como os Stargazers e a Broadway Dance Band, ele logo se destacou por sua habilidade como guitarrista e arranjador, mesclando ritmos tradicionais da África Ocidental com influências do jazz e da música americana.
Em 1962, após se mudar para Londres com sua banda, a Black Star Highlife Band, Taylor teve contato com artistas africanos e do movimento afro-caribenho, incluindo com o próprio Fela Kuti, uma experiência que ajudou a forjar vínculos entre highlife e as primeiras manifestações do afrobeat. Essa estadia também o colocou em contato com cenas musicais internacionais que reverberariam em sua produção ao longo de toda a carreira.
De volta ao seu país, Ebo atuou como produtor, compositor e mentor, colaborando com artistas influentes como Pat Thomas e C.K. Mann, e se tornando referência absoluta na cena ganense. Sua abordagem refinada ao arranjo e sua capacidade de fundir tradição e experimentação fizeram dele um artista singular, capaz de traduzir o espírito de seu tempo e, ao mesmo tempo, preservá-lo em sua música.
Legado continental e global
Se na África Ebo Taylor já era uma lenda, globalmente sua música conquistou novos públicos especialmente nas décadas recentes. Relançamentos de álbuns como Love & Death (2010), Appia Kwa Bridge (2012) e Yen Ara (2018) aproximaram sua obra de ouvintes fora do continente e influenciaram artistas contemporâneos.
Além disso, seu repertório foi amplamente reinterpretado e sampleado por músicos de hip-hop e R&B ao redor do mundo. Nomes como Usher, Black Eyed Peas, Kelly Rowland, Jidenna, Vic Mensa e Rapsody reutilizaram elementos de sua música, criando uma ponte sonora entre a tradição africana e a cultura pop contemporânea, um gesto que confirma como a obra de Taylor se estende muito além de fronteiras geográficas.
O impacto de Ebo Taylor também foi reconhecido por instâncias culturais como a UNESCO, que incluiu o highlife na Lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, um reconhecimento da importância histórica do gênero e da contribuição de artistas como Taylor para a música afro-descendente.
Uma vida de invenção e resistência
Para muitos pesquisadores e fãs, a música de Ebo Taylor funcionou como um mapa afetivo das trajetórias africanas urbanas e das diásporas culturais que moldaram o século XX e início do XXI. Mais do que um guitarrista ou compositor técnico, ele foi um narrador sonoro das transformações sociais, políticas e estéticas que atravessaram Gana e várias regiões do continente.




