21 de maio de 2026

Negócios

Entre cultura e mercado: Negritudes Globo discute transformação da publicidade brasileira

Projeto promoveu debates sobre representatividade, consumo e a construção de marcas mais conectadas à realidade do país

Barbara Braga | 21/05/2026
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Durante anos, o mercado publicitário brasileiro vendeu diversidade como estética. Mas raramente como estrutura.

A presença negra aparecia nas campanhas, nos comerciais e nos discursos institucionais, enquanto os espaços de criação, decisão e liderança continuavam operando sob a mesma lógica de sempre.

Agora, o próprio mercado começa a perceber que isso já não sustenta conexão real com o público.

Foi justamente essa discussão que atravessou o encontro promovido pelo Negritudes Globo em São Paulo, reunindo artistas, influenciadores, executivos e profissionais da publicidade para pensar um tema que se tornou inevitável: como marcas podem continuar relevantes em um país profundamente moldado pela cultura negra, pela juventude periférica e por consumidores cada vez mais críticos?

Hoje, marcas já não disputam apenas atenção. Disputam credibilidade cultural. E isso exige muito mais do que campanhas visualmente diversas.

A pesquisa “Juventudes Brasileiras”, apresentada durante o encontro, ajuda a entender esse novo cenário. Os dados mostram uma geração mais consciente sobre identidade, mais crítica em relação às empresas e menos disposta a consumir discursos artificiais.

Os números revelam uma juventude que valoriza:

  • autenticidade
  • liberdade de expressão
  • posicionamento real
  • e conexões verdadeiras com a cultura.

Ao mesmo tempo, cresce a percepção de que diversidade sem coerência virou apenas estratégia de marketing facilmente identificável pelo público.

Esse talvez tenha sido o ponto mais forte do encontro. A compreensão de que comunicação não se sustenta mais apenas na lógica da tendência. Ela precisa nascer de pertencimento, escuta e legitimidade.

E existe uma razão importante para isso. A cultura negra brasileira deixou de ocupar apenas o lugar de influência simbólica para se consolidar como força central da produção cultural contemporânea do país.

Está na música, na linguagem, na moda, na internet, no esporte, no comportamento, na maneira como o Brasil se comunica consigo mesmo.

Ainda assim, por muito tempo, a publicidade consumiu essa potência cultural sem necessariamente redistribuir espaço, poder ou protagonismo.

Por isso, quando artistas como Rashid, Rael e Duquesa participam de discussões sobre mercado e comunicação, o debate deixa de ser apenas artístico. Ele se torna também político e estrutural.

Porque criadores negros e periféricos hoje não funcionam apenas como “rostos” de campanhas.
Eles são tradutores culturais de um Brasil que durante décadas foi observado pela publicidade, mas raramente ouvido de verdade.

A ideia de que representatividade não pode mais ser tratada como departamento isolado dentro das empresas, mas como parte central da construção de narrativas, estratégias e relações de mercado.

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Barbara Braga