16 de fevereiro de 2026

Filmes e séries

Como a Rainha Charlotte usa seu cabelo para unir história, identidade e empoderamento

A série Bridgerton vai além do figurino de época e transforma os penteados, especialmente aqueles inspirados na estética afro, em símbolos de poder e presença

Barbara Braga | 16/02/2026
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- Crédito: Liam Daniel/Netflix

Quando se fala de Queen Charlotte: A Bridgerton Story, muitas vezes a atenção vai direto para os exuberantes vestidos, os salões opulentos e o drama romântico que marca o universo de Bridgerton. Mas há um elemento que tem chamado atenção, e não apenas dos fãs de moda ou produção, pela forma como comunica história e identidade: os penteados.

Na série, o trabalho do departamento de cabelo foi ambicioso e profundamente intencional: mais de 1.500 perucas e penteados elaborados foram criados para comunicar visualmente a narrativa, incorporando referências do período da Regência, mas também séculos de estilos ligados à estética negra.

Essas criações vão muito além do figurino tradicional de época, elas reinventam o papel do cabelo afro na história e celebram sua potência estética como narrativa visual.

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Pentes, tranças e volume: quando o cabelo vira história

Os penteados de Queen Charlotte não são apenas acessórios: são partes ativas da construção da personagem. Desde o primeiro episódio, em que Charlotte aparece com um penteado mais natural, até momentos em que sua cabeleira se torna volumosa e estilizada de forma quase escultural, o cabelo acompanha sua jornada de descoberta, afirmação e poder.

Esse processo de progressão é um gesto visual poderoso: enquanto a personagem entra em um novo mundo de expectativas e regras sociais, seu cabelo, ora natural, ora elevado a formas dramáticas, reflete tanto sua identidade quanto o modo como ela escolhe se afirmar em meio a tradições rígidas.

Celebrar o cabelo afro em uma narrativa de época

Historicamente, narrativas de época raramente apresentam o cabelo negro com autenticidade ou protagonismo, especialmente quando ambientadas em contextos europeus do século XVIII e XIX. Mas a produção decidiu quebrar essa lógica: os penteados foram pensados não apenas para refletir moda e sociedade, mas também para integrar texturas e formas afro no imaginário visual da série.

O resultado é uma mistura fascinante de estética da época e tradição afro: penteados com tranças, cachos e texturas que evocam força e presença, apoiados por estruturas internas (como armações de metal e madeira nas perucas) que permitem aos estilos se manterem firmes e expressivos na tela.

Essa escolha de estética representa um ato de presença cultural: ao mostrar cabelos que remetem à textura natural e às tradições afro dentro de uma narrativa que poderia muito bem ignorá-los, a série afirma que o cabelo negro tem história, significado e valor visual próprios, mesmo quando reinterpretado em um contexto fictício de realeza.

Do natural ao monumental e tudo no meio

A equipe liderada pelo designer de cabelo Nic Collins trabalhou para que não faltasse diversidade de textura e forma nos penteados, desde estilos mais naturais até peças altamente elaboradas e volumosas.

Esses visuais poderosos representam mais do que moda de época: eles trouxeram para a tela uma forma de empoderamento e celebração estética que ecoa na cultura contemporânea, conectando elementos clássicos e modernos de identidade negra.

Além de ser um elemento visual marcante, a representação do cabelo afro em Queen Charlotte funciona como linguagem narrativa. Ao longo dos episódios, os diferentes estilos capilares sinalizam mudanças de estado emocional, afirmação pessoal e relações de poder da protagonista.

Em muitos aspectos, o cabelo, seja em sua forma mais natural ou em versões superiores e dramáticas, se torna quase um personagem por si só, traduzindo em imagem o que o diálogo e a trama social sussurram: identidade, agência e presença não podem ser ignoradas ou apagadas, mesmo em histórias de realeza fictícia.

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Barbara Braga