21 de julho de 2026

Esportes

Atletismo feminino muda regras de transmissão para combater a sexualização de atletas

Entidades esportivas europeias querem reduzir imagens que desviam a atenção da performance das competidoras

Barbara Braga | 21/07/2026
Thumbnail
- Crédito: Shutterstock

Por décadas, mulheres atletas precisaram disputar muito mais do que medalhas.

Enquanto treinavam para quebrar recordes, muitas também enfrentavam outro obstáculo: a forma como seus corpos eram retratados pelas transmissões esportivas. Câmeras posicionadas em ângulos específicos, closes prolongados e replays sem relevância técnica ajudaram a transformar performances históricas em conteúdos frequentemente marcados pela objetificação.

Agora, uma mudança importante busca alterar esse cenário.

A Federação Europeia de Atletismo (European Athletics) e a União Europeia de Radiodifusão (EBU) anunciaram novas diretrizes para transmissões esportivas com o objetivo de evitar a sexualização de atletas mulheres durante competições de atletismo. As recomendações passam a orientar a cobertura de eventos europeus a partir desta temporada.

Menos foco no corpo, mais foco na performance

As novas orientações sugerem que emissoras evitem imagens que historicamente foram alvo de críticas por parte de atletas e organizações esportivas.

Entre as recomendações estão:

  • Evitar closes prolongados em partes específicas do corpo;
  • Reduzir enquadramentos feitos de baixo para cima ou por trás das competidoras;
  • Limitar o uso de câmeras lentas sem relevância esportiva;
  • Priorizar imagens que ajudem o público a compreender aspectos técnicos das provas.

A proposta não busca diminuir a exposição das atletas, mas mudar a forma como elas são apresentadas ao público.

Segundo as entidades responsáveis pela iniciativa, a prioridade deve ser destacar habilidade, técnica, potência física e desempenho esportivo, e não atributos corporais desvinculados da competição.

As diretrizes foram desenvolvidas com participação direta de atletas que há anos denunciam esse tipo de abordagem.

Entre elas está a britânica Holly Bradshaw, medalhista olímpica do salto com vara, que relatou já ter enfrentado desconforto durante competições e repercussões negativas nas redes sociais após determinadas imagens serem amplamente compartilhadas.

A ex-campeã mundial de salto em distância Ivana Spanovic também colaborou na elaboração das recomendações e defendeu que o atletismo possui inúmeras possibilidades visuais capazes de valorizar a beleza técnica do esporte sem recorrer à objetificação das competidoras.

Uma discussão que vai além do atletismo

O debate não é novo. Nos últimos anos, atletas de modalidades como vôlei de praia, ginástica, tênis e atletismo passaram a questionar publicamente a maneira como as transmissões frequentemente enquadram mulheres de forma diferente dos homens.

A discussão ganhou força especialmente após os Jogos Olímpicos de Paris, quando organismos esportivos internacionais voltaram a debater práticas de cobertura consideradas sexistas.

O problema não está apenas na televisão. Com a velocidade das redes sociais, imagens retiradas de contexto podem circular amplamente, alimentar assédio digital e reforçar estereótipos sobre mulheres no esporte. As novas diretrizes também procuram reduzir esse tipo de exposição.

A decisão da European Athletics toca em uma questão maior: a forma como mulheres são lembradas dentro da história do esporte.

Quando uma transmissão escolhe destacar um corpo em vez de uma conquista, ela influencia a maneira como o público interpreta aquela atleta. E isso se torna ainda mais significativo quando falamos de mulheres negras, que historicamente tiveram seus corpos observados, julgados e explorados muito antes de terem seus talentos reconhecidos.

Ao propor uma cobertura centrada no desempenho, o atletismo europeu abre espaço para uma reflexão necessária: mulheres atletas não precisam ser protegidas da visibilidade. Elas precisam ser vistas pelo que realmente fazem.

TAGS:
AUTOR:
Barbara Braga