19 de fevereiro de 2026

Carnaval

O Carnaval como a maior passarela do Brasil, a alta-costura está na avenida, coletiva e em movimento

Da Sapucaí ao Anhembi, as gantasias e alegorias carregam narrativa, ancestralidade e o trabalho de centenas de artesãos nos bastidores

Barbara Braga | 19/02/2026
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- Crédito: @jmarruda2

Quando se fala em alta-costura, a imagem que surge costuma ser parisiense: salões silenciosos, peças feitas sob medida, bordados minuciosos, exclusividade extrema. A tradição da Chambre Syndicale de la Haute Couture consolidou a ideia de que luxo é sinônimo de raridade, precisão técnica e certificação institucional.

Mas e se o Brasil já praticasse sua própria alta-costura, apenas sob outra lógica? Durante o Carnaval, tanto no Sambódromo do Anhembi quanto na Marquês de Sapucaí, escolas de samba operam como verdadeiras maisons. Há um diretor criativo (o carnavalesco), há pesquisa histórica, desenvolvimento de conceito, desenho de figurinos, prototipagem, escolha de materiais, construção manual e um calendário rígido de apresentação pública. O que muda não é a complexidade, é a estrutura simbólica.

É um trabalho que envolve costureiras, aderecistas, bordadeiras, ferreiros, escultores, pintores, figurinistas e designers, todos trabalhando para transformar conceito em imagem.

@woody_henrique / Liga-SP | @nenedevilamatildeoficial

O ateliê que vira cidade

Enquanto uma maison produz dezenas de peças por temporada, uma escola do Grupo Especial pode colocar na avenida milhares de fantasias. Cada ala tem identidade visual própria, cada figurino dialoga com um capítulo do enredo, cada adereço precisa funcionar estética e estruturalmente.

Nos barracões, o processo se assemelha ao de um grande ateliê expandido: modelagem, moulage, bordado manual, aplicação de cristais, estruturas metálicas, pintura artística, testes de peso e mobilidade. Uma fantasia pode ultrapassar dez quilos e ainda assim precisa permitir dança, giro, resistência ao calor e leitura visual à distância.

A estética também é memória, ancestralidade e território

Em 2026, esse bastidor apareceu com força em escolas como Mangueira, Portela e Imperatriz Leopoldinense, que seguem elevando o Carnaval ao nível de uma moda altamente autoral, feita para ser vista em movimento.

No caso da Estação Primeira de Mangueira, esse entendimento foi reforçado por quem vive a escola de dentro. A cantora Karinah, musa da Verde e Rosa, destacou como a construção estética do desfile não é só “beleza”, é também um gesto de reconhecimento cultural:

“A Mangueira valoriza o legado do Mestre Sacaca e o simbolismo do Amapazeiro… graças à visão do carnavalesco Sidnei França e sua equipe.”Karinah, em 2026, ao comentar o trabalho criativo da escola.

A fala é importante porque revela o que muitas vezes o público não vê: as escolas não “inventam fantasias”. Elas constroem visualmente uma história, com identidade, matriz, pesquisa e responsabilidade.

O Brasil também tem alta-costura e vem da comunidade

Na alta-costura europeia, exclusividade costuma significar peça única, feita sob medida para poucos. No Carnaval brasileiro, exclusividade é outra coisa: é o luxo feito por muitas mãos, para ser visto por milhões.

Plumas, cristais, metais, bordados e volumes gigantes não existem ali só como exuberância. Eles têm função estética e dramática: contam uma narrativa e sustentam um espetáculo que é, ao mesmo tempo, moda, teatro, música e performance.

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Barbara Braga