6 de fevereiro de 2026

Moda

Moda no pódio: Brasil, Canadá, EUA e Haiti transformam uniformes olímpicos em identidade e narrativa

Entre luxo alpino, performance técnica e memória histórica, delegações mostram que vestir a Olimpíada também é disputar imagem, cultura e pertencimento

Barbara Braga | 06/02/2026
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- Crédito: @moncler/@lululemon/@ralphlauren/@stellajean_sj_

Os Jogos Olímpicos (e especialmente as edições de inverno) sempre foram um espetáculo de performance. Mas, nos últimos anos, a cerimônia de abertura, e os looks usados ao longo do evento, também se consolidaram como um território simbólico onde as nações disputam algo além de medalhas: narrativa, identidade e presença cultural.

Entre casacos estruturados, peças térmicas de alta tecnologia e referências diretas à história de cada país, alguns uniformes chamaram atenção por ir além da estética. Eles funcionam como uma extensão do que cada delegação quer comunicar ao mundo, seja por meio do luxo, da funcionalidade ou de uma mensagem política sobre pertencimento e resistência.

A seguir, quatro escolhas que revelam como a moda olímpica se tornou linguagem.

Brasil: Moncler e o “inverno” como imaginação global

O Brasil, país associado internacionalmente ao calor, ao verão e ao litoral, entra no imaginário do inverno olímpico por um caminho estratégico: o do luxo alpino. A escolha da Moncler, marca italiana reconhecida por unir sofisticação e performance térmica, posiciona o Brasil em um lugar que não é apenas esportivo, mas também aspiracional.

É como se o uniforme dissesse: o Brasil não está “fora do lugar” no gelo. Ele está presente, e pode ocupar esse território com a mesma potência estética que outras nações tradicionalmente associadas ao frio.

Canadá: Lululemon e o uniforme como ferramenta

Se o Brasil aparece pelo glamour técnico, o Canadá segue por outra lógica: funcionalidade, modularidade e símbolo nacional.

Assinados pela Lululemon, os uniformes canadenses se destacam por peças pensadas para o extremo: camadas, versatilidade, conforto real e adaptação. A estética é limpa, contemporânea e prática, quase um manifesto de design voltado ao corpo e ao movimento.

A assinatura canadense está no equilíbrio: o uniforme não tenta ser “fashion” no sentido tradicional, mas se impõe como um projeto de eficiência. E isso também é narrativa: o Canadá se apresenta como país do frio, do preparo, do esporte e da resistência cotidiana.

Estados Unidos: Ralph Lauren e o patriotismo como estilo

Nos Estados Unidos, a parceria com a Ralph Lauren é quase uma tradição institucional. O uniforme segue a estética “Americana” que a marca construiu ao longo de décadas: alfaiataria esportiva, casacos estruturados, tricôs, paleta sóbria e um patriotismo visual cuidadosamente calculado.

É uma construção de imagem que funciona como soft power: os EUA se apresentam como clássicos, confiantes, elegantes e, ao mesmo tempo, acessíveis dentro do imaginário do “esporte nacional”.

Nesse caso, o uniforme não busca ruptura. Ele reafirma uma identidade que o mundo já reconhece.

Haiti: Stella Jean e a roupa como memória e resistência

Talvez o uniforme mais simbólico entre os quatro seja o do Haiti. Assinado pela estilista Stella Jean, o look carrega referências diretas à história haitiana e à herança cultural do país e, por isso, ultrapassa o campo da moda.

A escolha de uma estética marcada por arte, cor e identidade funciona como resposta a um contexto em que o Haiti é frequentemente reduzido a narrativas de crise e vulnerabilidade. O uniforme, aqui, atua como contraimagem: uma declaração de dignidade, ancestralidade e permanência.

Mais do que representar um país, ele representa um povo, e lembra que estar na Olimpíada também é existir publicamente, com história e complexidade.

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Barbara Braga