11 de março de 2026

Música

MC Cabelinho e TZ da Coronel lançam o álbum Palácio de Lona: “A gente fez esse álbum pra favela

Projeto nasce da vivência nas favelas do Rio e aposta na união entre artistas da mesma geração do rap e trap nacional

Barbara Braga | 10/03/2026
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Dois dos nomes mais fortes da nova geração do rap e do trap nacional, MC Cabelinho e TZ da Coronel lançaram o álbum colaborativo “Palácio de Lona”, um projeto que nasce da união entre trajetórias parecidas, amizade e vivência de favela. Com 10 faixas, o disco reúne oito músicas em parceria entre os artistas e duas individuais, consolidando um encontro que vai além de uma simples colaboração musical.

Mais do que um título, “Palácio de Lona” carrega um conceito que traduz a origem dos dois artistas. A imagem do palácio simboliza conquista e grandeza; a lona, por outro lado, remete à realidade das favelas, onde muitas vezes é ela que protege da chuva ou cobre os bailes de comunidade.

Para Cabelinho, o nome nasce exatamente dessa contradição que faz parte da vivência de quem cresce na periferia.

“Na favela nós aprendemos a ter o nosso castelo, tá ligado? A lona é o que tampa a chuva, o que cobre o baile também. Então é como se a gente se sentisse rei, só que na favela. Lá é o nosso Palácio de Lona.”

A ideia, segundo ele, é simples e poderosa: não é preciso sair da favela para se reconhecer como rei da própria história.

Um álbum para a favela

Depois do tom mais introspectivo de seu último trabalho, Não Sou Santo, Não Sou Bandido, Cabelinho conta que sentiu vontade de entregar um projeto com outra energia, mais voltado para celebração, autoestima e identificação direta com o público de onde veio.

“Meu último álbum ficou bem depressivo. Quando eu colocava as músicas em casa, tinha gente chorando. Já quando eu boto o Palácio de Lona, os caras querem beber, dançar, curtir. Então acho que é um álbum que traz muita autoestima pra nós.”

Para ele, o disco nasce diretamente da vivência das ruas.

“É um álbum pé do chão. Um álbum que todo cria vai se identificar. A gente fez realmente pra favela, pro nosso povo.”

Mesmo assim, Cabelinho acredita que a música criada nas periferias inevitavelmente ultrapassa fronteiras.

“Os playboys sempre acabam gostando do que vem da favela. Eles esquecem do favelado, mas querem imitar nossa roupa, nosso porte, nosso estilo.”

União e fortalecimento da própria cena

Além da parceria entre Cabelinho e TZ da Coronel, o projeto também abre espaço para novos nomes. Artistas como Vinicin, Raflow, Orochi, MC Pose e Oroã participam do disco, reforçando a ideia de movimento coletivo.

Cabelinho explica que a decisão de incluir artistas próximos não foi casual. Hoje, tanto ele quanto TZ possuem seus próprios selos musicais e procuram usar essa estrutura para impulsionar novos talentos.

“Eu tenho minha gravadora, a “Bairro 13”. O TZ tem a “Cúpula”. A gente falou: se for colocar feat, vamos colocar nossos meninos, dar um up pra eles também.”

Para ele, fortalecer quem vem da mesma realidade é parte fundamental da caminhada.

“Nós só estamos puxando os nossos, levantando o nosso time. Amanhã ou depois eles vão estar voando também, porque são muito talentosos.”

A favela como origem e como identidade

Embora um dos clipes do projeto tenha sido gravado na Rocinha, Cabelinho faz questão de ampliar a leitura sobre o território que inspira o disco.

Mais do que uma comunidade específica, o álbum fala da experiência compartilhada entre diferentes favelas do Rio.

“Não é só a história da Rocinha. É a história da minha favela, do PPG, do Morro do Limão, de várias favelas. A gente sabe da nossa realidade, de tudo que passou lá no começo.”

Hoje, reconhecido nacionalmente, o artista diz que transita entre diferentes mundos, mas sem perder a conexão com a origem.

“Hoje as pessoas olham pra gente com outros olhos. Mas eu não posso esquecer de onde eu vim. Ainda tenho família lá, meus amigos estão lá. Foi esse público que me fez chegar onde eu tô.”

Estudo, disciplina e novos caminhos

Além da música, tanto Cabelinho quanto TZ demonstram uma rotina de disciplina que inclui treino físico, estudo e preparação constante, algo que também aparece na construção do álbum.

“O TZ tá sempre treinando boxe, eu também treino, faço aula de história, estudo. Acho que isso reflete na nossa música e no que a gente passa pra quem acompanha a gente.”

E o futuro já aponta para novas direções. Cabelinho revelou que pretende explorar o Afrobeat em um próximo projeto, aprofundando referências na música africana.

“Eu comecei a ouvir muito Afrobeat, comecei a estudar também. Descobri o Fela Kuti e tô pesquisando bastante. Ainda não tô 100% confiante pra falar, mas tô trabalhando nisso.”

O artista revelou ainda que pretende passar um período estudando fora do Brasil e já trabalha em possíveis parcerias internacionais.

“Tô muito ansioso pra esse projeto. Acho que até o final do ano consigo entregar alguma coisa de Afrobeat pra galera.”

Com “Palácio de Lona”, MC Cabelinho e TZ da Coronel transformam vivência em linguagem artística. O álbum nasce da favela, dialoga com quem compartilha essa realidade e, ao mesmo tempo, amplia o alcance de uma geração que hoje ocupa novos espaços na música brasileira.

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Barbara Braga