África
Gana propõe à ONU reconhecer tráfico transatlântico de escravos como crime contra a humanidade
Resolução liderada pelo presidente John Dramani Mahama foi aprovada pela União Africana e será apresentada à Assembleia Geral das Nações Unidas
O presidente de Gana, John Dramani Mahama, anunciou a aprovação, no âmbito da União Africana, de uma resolução que reconhece o tráfico transatlântico de escravos e a escravidão como o “mais grave crime contra a humanidade”. A proposta será levada à Organização das Nações Unidas (ONU) para apreciação da Assembleia Geral.
A iniciativa foi adotada por consenso entre os Estados-membros da União Africana e representa um movimento diplomático articulado para consolidar, em âmbito internacional, um posicionamento político e moral sobre um dos períodos mais violentos da história moderna.
Quatro séculos de violência e deslocamento forçado
Entre os séculos XV e XIX, o tráfico transatlântico de escravos forçou o deslocamento de milhões de africanos para as Américas e o Caribe. Homens, mulheres e crianças foram capturados, vendidos e submetidos a regimes brutais de trabalho forçado, desumanização e violência sistemática.
Estudos históricos estimam que mais de 12 milhões de africanos foram embarcados em navios negreiros, em condições desumanas. Milhões morreram durante as travessias conhecidas como “passagem do meio”. O impacto demográfico, econômico e social desse sistema foi devastador para o continente africano, e suas consequências estruturais permanecem até hoje.
Para além do período formal da escravidão, o legado do tráfico moldou desigualdades raciais profundas nas Américas, na Europa e na própria África, influenciando estruturas de poder, acesso à terra, renda, educação e cidadania.
Reconhecimento histórico e debate sobre reparações
Ao classificar oficialmente a escravidão transatlântica como “o mais grave crime contra a humanidade”, a resolução liderada por Gana busca fortalecer uma narrativa histórica respaldada por evidências acadêmicas e reivindicações da diáspora africana.
O reconhecimento formal pela ONU poderia ampliar discussões sobre memória histórica, políticas de reparação e responsabilidade internacional. Nos últimos anos, países do Caribe e movimentos da sociedade civil têm intensificado pedidos por compensações financeiras, pedidos oficiais de desculpas e investimentos estruturais em comunidades afetadas pelo legado da escravidão.
Segundo Mahama, a proposta não tem caráter simbólico isolado, mas pretende consolidar um entendimento global sobre a magnitude do crime e seus efeitos duradouros.
África e diáspora em articulação global
A resolução também sinaliza uma articulação política mais forte entre o continente africano e a diáspora. Gana tem sido um dos países que mais investem na reconexão com descendentes da escravidão, promovendo políticas de memória, turismo histórico e incentivo ao retorno simbólico de afrodescendentes.
A data escolhida para a apresentação da proposta à ONU coincide com o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos, celebrado em 25 de março, um gesto que reforça o peso simbólico e diplomático da iniciativa.




