Carnaval
A última noite da Sapucaí foi de ancestralidade, música e legado com Tuiuti, Vila Isabel, Grande Rio e Salgueiro
Com enredos fortes e com resistência cultural, as escolas encerraram os desfiles do Carnaval carioca mostrando que o samba é narrativa viva e identidade de um povo
A terceira e última noite de desfiles do Grupo Especial do Carnaval 2026 na Marquês de Sapucaí foi marcada por enredos potentes, momentos de referência cultural e apresentações que misturam tradição e experimentação estética. Na madrugada de 17 de fevereiro, as quatro escolas que fecharam a programação, Paraíso do Tuiuti, Unidos de Vila Isabel, Acadêmicos do Grande Rio e Acadêmicos do Salgueiro, imprimiram na avenida um conjunto de histórias que atravessam mundo afro-brasileiro, música, ancestralidade e identidade popular.
Foi uma noite em que o samba não brincou em serviço: cada escola fez uso completo da avenida para contar histórias que ecoam para além da festa, como memória, afirmação e expressão política.
Tuiuti: “Lonã Ifá Lucumí” e a celebração da religiosidade afro
A Paraíso do Tuiuti abriu a noite trazendo à Sapucaí o enredo “Lonã Ifá Lucumí”, um mergulho profundo nas tradições espirituais ligadas ao culto Ifá, matriz que, originária da África Ocidental, encontrou lugar e resistência nas Américas.
A escola foi simbólica ao colocar no centro da avenida narrativas que são frequentemente marginalizadas: povos, orixás, rituais e saberes que sobrevivem à história de violência colonial e escravidão. O samba enredo, os carros e as alegorias funcionaram como sala de memória, apresentando uma religiosidade afro que não é exotizada, mas celebrada como patrimônio vivo.
Essa escolha não foi apenas estética, foi política: enfatizar religiões negras como narrativa legítima em uma Sapucaí que historicamente privilegia referentes eurocêntricos é um gesto de resistência.
Vila Isabel: samba, arte e a África no centro da narrativa
Em seguida, a Unidos de Vila Isabel apresentou seu enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”, uma homenagem ao multiartista Heitor dos Prazeres, figura humana que costurou música popular, religiosidade e representação cultural na história do samba.
A Vila Isabel trouxe para a avenida imagens que dialogam com a diáspora africana, a música como forma de história e a ancestralidade musical brasileira. Ao resgatar reverências à África por meio de um samba que canta tanto passado quanto futuro, a escola mostrou como o Carnaval continua sendo espaço legítimo de afirmação cultural negra.
Críticos e público destacaram a apresentação como uma das mais impactantes da noite, justamente pelo equilíbrio entre forma, significado e potência narrativa.
![]() | ![]() | ![]() |
@wandersilllva | @vilaisabel.oficial
Grande Rio: manguebeat, identidade urbana e presença de quadrilha
Logo depois, a Acadêmicos do Grande Rio entrou na Sapucaí com um enredo dedicado ao Movimento Manguebeat, expressão artística nascida em Recife, que mistura tradições populares com ritmos contemporâneos, como rock, maracatu, hip-hop e música eletrônica, para criar um som que é ao mesmo tempo raiz e revolução.
A escola trouxe à avenida a ideia de que o samba carioca e as culturas periféricas do Nordeste compartilham uma mesma pulsão de presença e reinvenção: quando as vozes que historicamente foram marginalizadas decidem dialogar com o mainstream, nasce linguagem nova, potente e conectada com o presente.
A estreia de Virgínia Fonseca como rainha da bateria também reforçou a presença feminina e contemporânea na festa, tornando o desfile da Grande Rio um momento em que tradição e contemporaneidade se encontraram.
Salgueiro: homenageando Rosa Magalhães e o legado do Carnaval
Fechando a noite e os desfiles do Grupo Especial, o Acadêmicos do Salgueiro apresentou um enredo dedicado à carnavalesca Rosa Magalhães, uma das figuras mais influentes do Carnaval brasileiro, uma artista que, ao longo de décadas, ajudou a definir estética, ritmo e significado para a folia.
O Salgueiro colocou em foco não apenas o trabalho técnico de Rosa, mas também seu impacto como agente cultural, história viva que reflete a importância das mulheres negras e mestiças na construção estética do samba-enredo.
A celebração do legado de Magalhães foi recebida com emoção pelos segmentos da escola e pelo público, afinal, ao homenagear uma figura que moldou gerações, o Salgueiro reafirma o Carnaval como arquivo vivo de estética, memória e identidade popular.
![]() | ![]() | ![]() |
Rapha Vidal / Salgueiro | @_julianafotografia
Ao juntar na mesma noite enredos sobre religiosidade afro, diáspora, música popular, movimentos urbanos e legado artístico, o último dia de desfiles mostrou como o Carnaval carioca continua sendo um espaço de resistência cultural e afirmação da experiência negra no Brasil.
Foi também sinal de que o samba, enquanto forma de arte coletiva, continua dialogando com questões profundas de história, ancestralidade e identidade, conectando passado e presente de forma orgânica.
Com os desfiles concluídos, a próxima etapa é a apuração das notas, quando jurados especializados vão divulgar os resultados técnicos e revelar, oficialmente, as escolas campeãs do Carnaval 2026 no Rio de Janeiro. A apuração acontece na quarta-feira de Cinzas, mantendo a tradição de suspense e celebração que envolve todo o país.










